Homens, Masculinidades e Políticas Públicas
17.11.2009 - No dia 12 de novembro foi lançada a publicação “Homens, Masculinidades e Políticas Públicas: aportes para a equidade de gênero”, cujo objetivo é apresentar um mapeamento inicial das políticas públicas que almejam promover a igualdade de gênero, tentando analisar de que maneira os homens estão incluídos nesse processo.
O documento é resultado de pesquisa conduzida pela ONG Promundo, organização voltada para a promoção das relações equitativas entre homens e mulheres, com o apoio do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA). A pesquisa foi feita entre janeiro e abril de 2009, com amostra composta por 749 homens e 448 mulheres, com idades entre 18 e 59 anos, moradores da cidade do Rio de Janeiro. Ela integra o Men and Gender Equality Policy Project (MGEPP), projeto internacional que objetiva levantar dados quantitativos e qualitativos sobre a participação de homens na produção de políticas públicas pró-equidade de gênero.
O MGEPP é coordenado pelo Promundo e pelo International Center for Research on Women (ICRW) e está sendo implementado em sete países, além do Brasil: África do Sul, Índia, Croácia, Camboja, Chile, México e Tanzânia. Tem-se como meta gerar dados comparativos que contribuam para a formulação de políticas e de programas de intervenção, de modo a acelerar mudanças positivas rumo à equidade de gênero em nível global.
O objetivo dos pesquisadores nessa etapa preliminar era investigar experiências, comportamentos e atitudes de homens e mulheres em relação à equidade de gênero, saúde sexual e reprodutiva, saúde materna e infantil, paternidade e violência baseada em gênero. Com essa finalidade, foi elaborado um longo questionário, com mais de 280 perguntas, que tratava de temas bastante diversos, tais como: papéis domésticos e familiares; sexualidade e prevenção; diversidade sexual; violência contra mulheres; violência sexual; divisão de tarefas domésticas; satisfação sexual; comunicação; paternidade; comportamento masculino em relação à procura por serviços médicos, entre outros.
Alguns dos dados apresentados em relatório preliminar são inquietantes. Por exemplo: se entre mulheres de camadas baixas 45,6% são favoráveis a um sistema de cotas que garanta porcentagem fixa de lugares para mulheres no governo, apenas 27,5% das mulheres de classe média afirmaram concordar com a política de ação afirmativa. Enquanto isso, um número significativamente maior de homens (64,3% nas camadas populares e 60,3% na classe média) se declarou favorável. O mesmo padrão pode ser observado quanto à proposta de reserva de cotas para chefias de empresas: se 66% das mulheres de camada popular se dizem favoráveis, somente 27,5% das mulheres de classe média o são, ao passo que 57,1% dos homens dessa classe e 52,5% dos homens de camadas populares afirmam concordar com a reserva de vagas.
Também causam incômodo as respostas dadas à afirmação de que “existem momentos nos quais a mulher merece apanhar”. Entre as mulheres de classe média, 15% concordam, ao passo que entre as mulheres das camadas populares esse percentual é de 8,5%. Quanto aos homens, 21% dos de camadas baixas estão de acordo com a frase, contra 5% dos homens de classe média. Em relação ao tema do estupro, os dados também causam desconforto: 15% das mulheres de camada popular e 5% das de classe média acreditam que “quando uma mulher é estuprada, geralmente é porque ela se colocou de alguma forma nessa situação”. Dentre os homens, os percentuais são de 17 e 6%, respectivamente. O conservadorismo também transparece na resposta à afirmativa segundo a qual “em qualquer caso de estupro, é necessário saber se a vítima era promíscua ou tinha má reputação”. Das mulheres pertencentes à camada popular, 18,6% concordam com a idéia, enquanto 25% das entrevistadas de classe média são favoráveis. Quanto aos homens, 25% dos de camada popular concordam, contra 8% daqueles de classe média.
O relatório preliminar da pesquisa aponta diversos temas e padrões que podem vir a ser explorados em análises mais aprofundadas. Ao final da publicação, são feitas algumas recomendações, entre elas: a de que haja intervenções com mensagens alternativas de gênero voltadas para meninos, jovens e homens; a de que seja feita uma revisão de políticas públicas atuais e uma reflexão acerca de como elas influenciam a participação dos homens como pais; a de que haja uma revisão das políticas de saúde da mulher e da criança, de modo a envolver os homens no pré-natal, parto e pós-parto; a de que se criem mecanismos de apoio à paternidade, incluindo o reconhecimento do direito de casais do mesmo sexo adotarem e/ou terem filhos biológicos; a de que sejam criados mecanismos que aumentem a percepção do local de trabalho como espaço privilegiado para trabalhar questões relacionadas à equidade de gênero, entre outras.