Caso Uniban
12.11.2009 - Estudante do curso de Turismo sofre violência de gênero em universidade paulista.
No dia 22 de outubro, Geisy Arruda, 20 anos, estudante do primeiro ano do curso de Turismo da Universidade Bandeirante de São Paulo (Uniban), no campus de São Bernardo do Campo, foi vítima de uma grave situação de violência. Sob a alegação de que o traje que vestia – um vestido curto – era inadequado, centenas de alunos e alunas se reuniram com o intuito de atacar a colega. Participaram do tumulto cerca de 700 estudantes, que demonstraram intolerância e selvageria, ao tentar agredir a aluna verbal e fisicamente.
Coagida por alunos e alunas da instituição de ensino superior e ameaçada de estupro, a vítima se trancou na sala de aula, amparada por um professor e alguns colegas, enquanto outros, do lado de fora, gritavam palavras e frases cheias de ódio e a ameaçavam. A porta da sala de aula foi arrombada e a Polícia Militar precisou intervir.
Para garantir a integridade física da aluna, os cinco policiais militares que a escoltaram – duas PMs, inclusive – precisaram usar gás de pimenta para abrir espaço entre a multidão de estudantes.
No dia seguinte, a Uniban instaurou sindicância para apurar o acontecido. Em nota oficial, a instituição manifesta "total repúdio" a qualquer manifestação de preconceito de gênero e qualquer forma de difamação ou violência, informa que os envolvidos serão ouvidos individualmente e que "pretende aplicar medidas disciplinares aos causadores do tumulto, conforme o seu regimento interno, respeitando-se o contraditório e a ampla defesa".
Por meio do assessor jurídico da reitoria, Décio Lencioni Machado, a Uniban confirma que a turma do curso de Turismo a que pertence a estudante ameaçada foi transferida para outro prédio, “mais fechado” e com “mais privacidade”. A iniciativa foi adotada para protegê-la. Desde o incidente, no último dia 22, a aluna Geisy não tem ido à universidade.
No dia 3 de novembro, a União Nacional dos Estudantes (UNE), representação dos estudantes universitários brasileiros, em comunicado assinado pela Diretoria de Mulheres da entidade, critica a ação de alunos e alunas que ameaçaram e insultaram a colega e, também, condena "todas as formas de opressão e violência contra as mulheres".
A UNE classifica o episódio de “cena de horror”, e afirma que as mulheres “sofrem cotidianamente, ao serem consideradas mercadoria e tratadas como se estivessem sempre disponíveis para cantadas e para o sexo”. A entidade defende a “punição a todos os agressores envolvidos nesse episódio e em outros tantos que acontecem e não repercutem na mídia", diz o comunicado.
Leia aqui a nota da UNE na íntegra.
Nota da UNE sobre violência sexista na Uniban
Nós, mulheres estudantes brasileiras, vimos a público repudiar todas as forma de opressão e violência contra as mulheres. No dia 22 de outubro deste ano, uma aluna da Uniban (campus ABC – São Paulo), com a falsa justificativa de ter ido à aula de "vestido curto", é seguida, encurralada, xingada e agredida por seus "colegas estudantes".
A cena de horror é filmada, encaminhada à internet e vira notícia por todo o país. Não aceitaremos que casos de machismo como esse passem despercebidos ou que se tornem notícia despolitizada nos meios de comunicação. O fato em questão revela a opressão que as mulheres sofrem cotidianamente, ao serem consideradas mercadoria e tratadas como se estivessem sempre disponíveis para cantadas e para o sexo. Não toleramos comentários que digam que a estudante "deu motivo" para ser agredida. Nenhuma mulher deve ser vítima de violência, nem por conta da roupa que usa nem por qualquer outra condição. Nada justifica a violência contra a mulher.
Sendo assim, nós, mulheres estudantes brasileiras, organizadas na luta pelo fim do machismo, racismo e homofobia, denunciamos a violência sexista ocorrida contra a aluna da Uniban, nos solidarizamos com as mulheres vitimizadas por esses crimes e queremos punição a todos os agressores envolvidos nesse episódio e em outros tantos que acontecem e não repercutem na mídia.
Não vamos nos calar perante o machismo e a violência.
Somos Mulheres e não Mercadoria!